Exibido em: 05-Ago-2026
| Ultima edição: Jonathan Ferreira | Editar minissinopse |
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"Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve épocas de chuvisco em que todo mundo pôs a sua roupa de domingo e compôs uma cara de convalescente para festejar a estiagem, mas logo se acostumaram a interpretar as pausas como anúncios de recrudescimento. O céu desmoronou-se em tempestades de estrupício e o Norte mandava furacões que destelhavam as casas, derrubavam as paredes e arrancavam pela raiz os últimos talos das plantações. Como acontecera durante a peste da insônia, que Úrsula dera para recordar naqueles dias, a própria calamidade ia inspirando defesas contra o tédio."
A chuva dura quase 5 anos, como um longo luto após o massacre dos trabalhadores e ao fim do qual Úrsula finalmente se despede. Pra um livro considerado inadaptável, essa adaptação está perfeita demais! Dá pra ver que ela toda foi feita com muito cuidado, carinho e respeito, embora, infelizmente, jamais saberemos o que o Gabo pensaria dela. O que se sabe é que ele havia resistido a qualquer tentativa de adaptar sua obra magna, mas creio que tenha sido por receio de o cinema deturpar sua visão, simplificando demais e a narrativa e a estrutura do romance, as raízes latino-americanos e, portanto, a própria essência da obra. Claro que algumas coisas foram cortadas e alteradas, mas é surpreendente o quanto do material original foi mantido e adaptado com uma competência há muito tempo não vista na Netflix. Chegamos à sexta geração dos Buendía: Amaranta Úrsula, filha de Aureliano Segundo e Fernanda, e seu sobrinho de idade próxima, o fofinho do Aureliano Babilônia, filho de Meme e Mauricio Babilônia. A morte de Úrsula, esta fortaleza de personagem que, mesmo centenária, carregou essa família nas costas, foi feita de maneira mais simples que no livro, mas nem por isso foi menos triste e bonita, reunindo-se com José Arcádio Buendía sob a castanheira. No livro, antes de morrer, ela vê diversos outros parentes falecidos. Mas o funeral acaba sendo bem assim mesmo, vazio, porque ninguém se lembra ou se importa com ela mais. "Amanheceu morta na quinta-feira santa. Na última vez em que a ajudaram a fazer as contas da sua idade, na época da companhia bananeira, calcularam-na entre os cento e quinze e os cento e vinte e dois anos. Enterraram-na num caixãozinho que era pouco maior que a cestinha em que fora trazido Aureliano e muito pouca gente assistiu ao enterro, em parte porque não eram muitos os que se lembravam dela e em parte porque nesse meio-dia fez tanto calor que os pássaros desorientados se arrebentavam como perdigotos contra as paredes e rasgavam as telas metálicas das janelas para morrer nos quartos." Santa Sofía de la Piedad veio e se foi sem alarde, a coitada, desde o começo anunciada como dotada da característica fantástica de "não existir por completo, a não ser no momento oportuno". E a série fez jus a isso, aposto que muita gente não deve nem saber seu nome t.t Ela cortou a garganta do filho morto, Aureliano Segundo, porque havia prometido a ele que se certificaria de que ele não fosse enterrado vivo, seu maior medo desde que vira isso acontecer com um soldado quando era jovem. O último episódio sai no dia 26/08 e mal posso esperar pra ver a conclusão dessa adaptação linda de uma das maiores histórias já escritas.
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Quando você pensa que Fernanda não pode ser mais desprezível, ela vai lá e estabelece um novo padrão. É perturbador ver o quão cruel ela é. Por que infligir feridas emocionais tão profundas a um menino tão pequeno por algo que não é culpa dele?
De certa forma, a chuva se torna mais uma personagem, enviada para purificar Macondo de seus pecados. É também uma maneira da cidade lamentar os milhares de mortos no massacre. Infelizmente, José Arcadio sofre o mesmo destino que seu bisavô. A cena em que ele quebra a quarta parede e nos lembra do massacre foi emocionante. Mesmo com a memória apagada, essa foi uma das poucas coisas de que ele se lembrava. É trágico, assim como nobre. A morte de Úrsula também representa um duro golpe para todos em Macondo. Acompanhamos sua trajetória, desde sua ascensão como uma matriarca forte até as dolorosas transições que enfrentou ao longo da vida. Seu falecimento simboliza o fim da antiga Macondo. Em retrospectiva, que época maravilhosa foi aquela!
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Quem ver a Fernanda não dê nem água
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E com o fim de Dona Úrsula, também inicia-se a derrocada final dos Buendía. Pra mim, o livro poderia acabar ali com a morte dela, mas a profecia tinha de se cumprir.
O contraste entre a morte de José Arcádio e Dona Úrsula é gritante. Enquanto um foi enterrado com honrarias e homenagens por toda a cidade, a outra foi levada praticamente como uma desconhecida ao seu túmulo. Prova de que a cidade já estava esquecendo o nome Buendía.
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A frieza e indiferença da Fernanda é assombrosa.
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